quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Bienal? Aff, vai não!

Fui à Bienal e achei uma bosta. Saí de lá com raiva dos nossos artistas, dos curadores da exposição, da imprensa e da crítica especializadas, dos meus amigos que tinham ido antes e não me avisaram, dos guardinhas da porta que, depois de me revistarem, me deixaram inadvertidamente entrar, e finalmente, do velhinho do algodão doce do Parque do Ibirapuera, que depois que eu saí, não me deu sequer condolências.

Fui até um aluno aplicado nessa coisa de arte. Li livros (uma porrada), assisti palestras, tive o privilégio de visitar alguns dos grandes museus do mundo, estudei. Fiz uma vez um curso de história da arte no MASP, ministrado pelo crítico e então colaborador do Jornal da Tarde Jacob Klintowitz, ilustrado nada menos do que com as próprias obras vivas do museu. Um momento de puro enlevo, aprendizado e prazer.

Só para registro, que assim fique: se não sou um esperto, não sou leigo.

Para então seguir aqui meu destempero e, a título de pura conjecção, alinhavar um fio de meada que, invisível, vai nos levar da história ao beco das coisas nenhumas. Explico e alinhavo.

A arte exibida lá – perdão, arte é aqui apenas uma expressão referencial – ilustra como, em certo dia, um século atrás, os expressionistas chutaram o balde, derrubaram o anão do banco, e nos colocaram, sem saber ou prever, num labirinto que não teria fim. Foi ali, tendo como princípio a desconstrução da forma, que tudo começou.

Na busca pelo mais recôndito de nós mesmos e de uma estética que aniquilasse a estética – era essa, afinal, a busca original - quebraram para sempre o paradigma da significância lógica. Uma viagem sem volta a um lisérgico Jardim do Éden.

Era o que queriam e foi o que, talentosamente, conseguiram. Tudo bem. Foi então um arrojo necessário. E eis que assim perscrutaram linguagens inauditas e encontraram Freud indo junto e fundo nas maravilhas do buraco da Alice (com todo o respeito psicológico aqui, por favor) para delírio insano deles mesmos e, alegria, alegria, também de todos nós.

Ali, o nó já estava dado.

Com eles vieram e a eles se sucederam os gênios do abstracionismo, do futurismo, do cubismo e do surrealismo, que elevaram ainda mais a arte a um patamar até então inenarrado. Uma vez mais, a busca original, o desconhecido de nós mesmo e um anti-tudo.
Klee, Kandinsky e Munch, e depois, Matisse e Mondrian, e ainda depois, os espanhóis Miró, Picasso e Dali, entre alguns (não muitos) outros, tiraram o chão de sob nossos pés, mas ao menos nos entregaram de volta um âmbito até então novo de nossa própria incógnita. Nos jogaram na cara nosso universo onírico, nossa mais vergonhosa psique, com direito a todos os seus medos e a todo o seu pânico, deram dimensão ao intangível e ao irreconhecível, e assim, nos levaram a conhecer quem nem mesmo sabíamos que éramos ou poderíamos vir a ser.

Foi uma troca justa. Aliás, pensando bem, diante de gente assim e de seu legado, na verdade, não foi justa nada: acho que seguimos devendo até hoje.

Mas ali começou o nadismo, um fervoroso, abrangente e inescapável movimento artístico de ampla representação entre praticamente todos os que os sucederam.

Meu filho mais velho, o Tiago, designer e diretor de arte, diz que a culpa foi mesmo de Marcel Duchamp. Depois da sua privada e da sua roda de bicicleta, nada mais seria arte, not anymore. Talvez ele tenha razão. O hamburger e as latinhas de sopas Campbell de Andy Wahrol tiveram lá sua contribuição, eu acrescentaria. A sinfonia do silêncio de John Cage seria o equivalente na música. Enfim, em dado momento, o beco. Foi tudo o que sobrou. O beco das coisas nenhumas. E, no final dele, o nada. Um gigantesco, historicamente inevitável, mas não por isso menos patético... nada. Um nadão, o nadismo e nada mais.

Que se faça e produza aquele amarfanhado monte de nada que ali se expõe é coisa que a cada um até se reserva e se preserva o direito. Seres humanos que somos, produzimos merda todo dia, afinal.
Selecionar, escolher, eleger, indicar e expor o que está a se expor no antes inovador e inspirador pavilhão Ciccillo Matarazzo (ele próprio, o edifício, a melhor obra de todas), é puro embuste. Fruto de uma curadoria sem cura. Falo de como quem foi a, pelo menos, metade das mostras ali mostradas em décadas. Coisa triste de ver.

Parangolés e móbiles tem senso. Ou não. E isso é bom. Ou não. Mas Hélio Oiticica e Calder iam morrer de rir. Aposto. Aliás, falando em aposta, uma das obras é uma cadeira, uma mesa e um baralho em cima. Coisa de gênio.

Gil Vicente conseguiu me tirar do eixo. Um pouquinho, mas conseguiu, vai, admito. Sua tara assassina na serial killer section “Inimigos” incomoda. Se que não seja só para isso, ao menos para isso, que se faça arte (a OAB que vá procurar causas em outro lugar, aliás).

Mas foi só.

A certa altura, fui ao banheiro. Fiz xixi olhando através de uma imensa vidraça, que me exibia despudoradamente as frondosas árvores do parque ali fora. Foi minha segunda melhor sensação nesta 29ª. Bienal Internacional de São Paulo. A primeira e a melhor de todas foi ter ido embora de lá.

Aff! Vai não!